Um novo projeto

Ano vai terminando, projetos vão se encerrando – ou em fase de – e a sede por novidade não pára (chupa, reforma ortográfica). Ano passado lancei meu primeiro livro de contos, a razão do absurdo, e esse ano colhi os frutos. Este ano não teve livro, talvez não terá um outro por mais alguns anos, mas ideias não faltaram. Além da inspiradora participação no Grupo Invitro, do coletivo Fita Amarela, outras ideias de projeto solo pipocaram na minha mente. Uma delas, vem do ano passado e explico. Durante a breve oficina que fiz com o professor e escritor Charles Kiefer produzi um texto de acordo com uma proposta que ele nos apresentou: escrever uma crônica que relatasse a nossa lembrança mais longínqua. Meu texto – o reproduzirei abaixo – acabou sendo o que Kiefer chama de “cronto”, uma mistura entre crônica e conto. Pudera, não acredito que a crônica, um gênero basicamente brasileiro, prescinda de uma dose de ficção, afinal rememorar é tarefa a qual nos é difícil sermos fidedignos. Tem muita teoria por aí sobre a memória e não pretendo discorrer sobre o tema. Só pare e pense, você seria capaz de contar uma história de sua infância sem recorrer ao recurso (perdão pela redundância) da ficção? De minha parte, acho um feito impossível. E por isso mesmo, extremamente instigante. E foi assim que tive a ideia de recuperar algumas histórias da minha infância. Boas histórias, acredito eu. Mas deixo vocês que sejam os juízes. Sim, pois agora teremos essas histórias, aqui, disponíveis. Deixem eu me empertigar, limpar a garganta e anunciar meu novo projeto: Um retrato do artista quando guri.

Nesse novo blog, terá todos as informações necessárias para se entender o porquê do projeto (que foi pensado pra ser livro, até). No entanto, acho que vocês podem ter uma ideia lendo minha crônica/conto que escrevi para o oficina do Charles Kiefer. Sem mais delongas aí vai o texto e espero vocês no blog novo:

A consciência da invenção

Quais são minhas lembranças e quais são as construções que fiz a partir de histórias que me contaram? O que de fato vivi e o que, engenhosamente, inventei? Meus pais contam que eu era um guri impossível. Corre a título de história de família duas ou três aventuras mirabolantes, da qual sou protagonista. Uma delas remonta a uma fuga marota na qual segui meu irmão, em um dia de chuva, até um bar, onde ele estava com alguns amigos. Outra dá conta que sentei em plena via expressa, literalmente parando o trânsito, só sendo interrompido, talvez à minha revelia, quando um motorista de ônibus conduziu-me até minha casa, parando por alguns instantes seu ofício. Mas aí que vem a problemática inicial. Contadas assim, desprovidas de sentimento, tais histórias parecem requentadas, realmente repassadas por mim tendo como fonte aqueles que me contaram. No entanto, parece-me que minha mente prega peças e quando lhes conto tais histórias me vejo nitidamente sentado com um caminhãozinho fazendo “burrum” em frente a uma fila de veículos ou sinto como se fosse agora em minha pele o tilintar molhado dos pingos daquela outra chuvosa fuga. O que de fato me lembro e o que minha mente construiu por se tratar de uma boa história digna de lembrança? Tais histórias ocorrem, sem dúvida, em minha primeira infância, talvez entre meus dois e três anos. Como posso então lembrar? Já eu teria me dado conta de minha existência? De fato, essas histórias que elenquei, por mais que minha mente teime em trazê-las à memória, tenho que admitir que sequer tenho lembrança. Tratam-se daquelas construções das quais falei, embaladas pela forte vontade – talvez de ilusionista, talvez de contador de histórias – de ter feito parte delas. Mesmo tendo, de fato, feito. Mas fica um sentimento de não-pertencimento, quase um protagonismo inventado por um coadjuvante invejoso. Se eu sequer lembro dessas histórias por que são elas tão importantes? Pois, de acordo com meus pais (e admitida a não-lembrança a legitimação da informação faz-se necessária), foram estes fatos que os fizeram pôr um cadeado no portão. Sim, caros amigos, trancafiaram-me. E aí está minha mais longínqua memória. Legítima, sem o subterfúgio da imaginação. Não raro me escapa entre os meandros da lembrança aquele portão fechado, cadeado a postos, evitando a repetição de algo que eu sequer lembrava ter cometido. Acho que aí que tomei consciência de mim – talvez possa ter sido mais tarde, mas ajudado por minha perspectiva atual acredito ser um bom momento para tanto. Tudo bem, sem exageros ou invenções. Mas é inegável que aquele momento frente à perda de liberdade é, no mínimo, representativo. Eu importava. Não poderia ser perdido ou machucado perante um perigo que minha pueril busca por liberdade não imaginava. Eu importava. A ponto de se fechar, até mesmo para visitas, a principal entrada para nossa casa. Eu importava. O que me arrenegava, já que para mim aquele cadeado era o primeiro impeditivo de muitos que a vida social ainda me imporia (disso, obviamente, eu ainda não tinha consciência). E acho que assim se fizeram minhas lembranças, um misto do meu eu atual com o que meu cérebro insiste em revelar, em pequenos flashes, imagens ligeiras (como a de um portão fechado a cadeado em uma tarde de sol). Há invenção, então? Talvez. Até onde deixo meu instinto de invenção tomar conta de minhas lembranças me é impossível distinguir. Porém como acho que tomei consciência de mim a partir de um ato arbitrário, frente a um impedimento, não seria justo impor o mesmo fechamento para minhas lembranças. A elas deixo o portão da imaginação invariavelmente aberto.

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