Chinoca

Seu senhor sabe que não sou de andança? Nunca me apeteceu. Gostava de ficar em casa, na sombra dos arvoredos, comendo fruta do pé. Minha Chinoca (assim eu a chamava) fazia um mate bem forte, não importava como estava o tempo, e  sentava comigo, em silêncio. Barulho só dos passarinhos e da bomba anunciando o mate que findava. A sombra preferida da Chinoca era a de uma árvore estranha que a gente tinha no fundo do campo. A danada tinha sido plantada pela mão da Chinoca mesmo. E era danada porque, mesmo mais novas que as outras, cresceu rápido. E enquanto crescia, se enrabichava nas outras, mais velhas, que tinha por perto. A Chinoca dizia que aquela era uma árvore abraçadeira, afetuosa, que gostava de alegrar as outras. Acho que era por isso que a Chinoca gostava tanto dela, nisso se pareciam. Eu vou lhe contar um segredo. Nunca gostei de praia. O senhor não vai se ofender se eu disser que nunca gostei muito de gente? Gostava dos meus bichos, soltos nos campos, das frutas maduras das árvores velhas e de suas sombras arejadas, e do mate quente. Mas gostava mesmo, assim de doer o peito, era da minha Chinoca. Hoje faz um ano que ela se foi. Já lhe falei que não gosto de praia? Não, o senhor se confundiu, esse não era o segredo. O segredo, mesmo, é o que a Chinoca me pediu quando ficou doente. O senhor me desculpe se pareço grosso. Sou só um velho do mato que nunca gostou de andar por aí, de brincar na areia da praia e de ver gente sorrindo pelas ruas agitadas. Mas a Chinoca me pediu. Me fez prometer. Disse ela que eu deveria sair, pelo menos uma vez por ano. Ir na praia, molhar o garrão sujo de areia na onda que sobe. E hoje faz um ano. E hoje, pela primeira vez, eu cumpri o prometido e vim nessa praia que é a maior de todas. E sabe o senhor o que eu vi? Uma árvore, parecida com aquela que a Chinoca gostava. Parecida mas diferente. Essa daqui era uma árvore que era duas. Grudadas, presas uma à outra por toda a eternidade. Como eu e a Chinoca. E eu não quero que o senhor me acredite, mas lhe garanto que enquanto eu via aquelas duas árvores, como se abraçando eu senti a Chinoca me abraçar, também. Ela como se ela tivesse ali, em silêncio, como sempre. E eu sei que não vou viver pra sempre, meu fim até está perto. E talvez eu encontre a Chinoca quando me for. Mas de uma coisa tenho certeza. Enquanto eu for vivo, vou voltar muito aqui. Não por causa da água fria das ondas. Ou da areia quente do sol. Ou da algazarra na avenida. Mas por causa daquela árvore. Só pra me sentir abraçado de novo.

Árvore

(Esse texto foi escrito como parte do projeto InVitro, do Coletivo Fita Amarela, a partir de proposta feita pelo participante André Barros – que além de escritor é diretor e ator de teatro)

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