O preço da arte

Há uma lenda urbana que dá conta de que arte é paixão, prazer, e que, por conta disso, não pode se vender. É claro que há um romantismo – e até uma questão ideológica – nesta afirmação, que vista de forma plana, sem pensar na complexidade da coisa toda, tem seu fundo de verdade. Porém, sempre há alguém para utilizar-se desta canhestra definição para praticar a exploração.

Outra definição, advinda do senso comum – por certo mal intencionado – é a de que artistas em formação precisam divulgar seu trabalho, portanto não poderiam cobrar muito e blá blá blá. Ou seja, mais uma desculpa para a exploração. E é engraçado ver como a divulgação é tão facilmente conduzida à exploração.

Eu não sou contra a divulgação, pelo contrário. Acredito que artistas podem, sim, distribuir seu trabalho de graça. Por exemplo, bandas disponibilizarem material para download, escritores terem blogs para divulgarem seus textos, artistas com sites para mostrarem seu traço e por aí vai. Porém, quando existe alguém querendo faturar em cima da sua “divulgação”, já não é mais pura e simples divulgação. Isso se chama exploração. Além disso, contrariando a lógica romântica, o artista propõe seu trabalho não fruto de uma inspiração divina, mas fruto de um esforço, que demanda recursos não só intelectuais mas também financeiros. Ou seja, o músico, o escritor, o artista plástico além de investir seu tempo em suas atividades, precisam dispor de instrumentos, livros, pincéis, respectivamente. E isso sendo o mais simplista possível – afinal as despesas vão muito além disso. Assim, por mais que eventualmente o artista disponibilize seu trabalho de graça, por fim, precisa ser remunerado, reembolsado (shows e CDs para os músicos, livros para os escritores, quadros/trabalhos gráficos para os artistas plásticos/desenhistas).

Em Rio Grande, além da manobra divulgação/exploração, há ainda a desvalorização natural do produto local. Por ser uma cidade do interior (provinciana?), volta e meia, questiona-se a qualidade do que aqui é produzido. No entanto, como mero espectador e observador digo que nada mais é que uma desculpa, ou talvez, “medo” do desconhecido. Em nossa cidade, produz-se arte da mais alta qualidade. Temos bandas de qualidade com reconhecimento regional e nacional, autores elogiados, artistas premiados. Por que diabos, então, se desvaloriza (ou tenta) o que é feito nessa ilha ao sul do sul do Brasil? A resposta é simples, desvalorizar, desdenhar, algo é o meio mais fácil para a exploração.

Bom, todo esse discurso só para comentar a atitude da organização da Festa do Mar. Esta é uma Festa tradicional na cidade, tão tradicional quanto a desvalorização dos talentos locais. As organizações anteriores não se inibiram de trazer atrações nacionais, que cobravam gordos cachês, enquanto o talento local recebia uma irrisória quantia a título de “divulgação”. E este ano não foi diferente. Pois bem, nossos amigos músicos cansaram, cansaram de não serem tratados com o devido respeito, cansaram de receber uma ajuda de custo quando, sabiam eles, mereciam um valor mais justo, de acordo com seus investimentos para produzirem uma música de qualidade. E assim foi proposto, em uma corrente de blogs, a partir da iniciativa do Eduardo Bozzetti, um boicote à Feira. O qual eu apoio totalmente.

E apoio por dois simples motivos. Primeiro, as ditas atrações desta festa nunca, de fato me atraíram, especialmente no que tange a música, com shows popularescos de gosto duvidoso – pro meu gosto, é claro. Segundo, porque se eu algum dia coloquei os pés na “tradicional” festa foi para prestigiar o talento local. Mas onde o talento local é desvalorizado, ele não merece estar. E eu, por consequência, também não vou. Diria que é um boicote fácil, já que a grande atração, pra mim, estará ausente.

É claro que sempre haverão aqueles que se dispõem a serem subjugados, é bem provável. Mas tenho absoluta certeza que os artistas que conheço, e respeito, não se submetem a tanto. O rol da minha preferência é formado por artistas de talento, mas acima de tudo de respeito. Respeito a sua própria arte e a seu próprio trabalho.

E pode até ser que a arte, em si, não tenha preço, mas é preciso ter mente que ela é fruto de trabalho, esforço, e este(s) não só podem como devem ser ressarcidos de maneira justa. Querer faturar sobre o esforço alheio não pode receber outro rótulo senão o da exploração.

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