Maringá, o eu daqui e eu lá

Nesta última semana meu eu daqui (o virtual) acabou sendo um tanto deixado de lado. O motivo é que estava em Maringá (PR) para o 2º Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários. Lá tive a oportunidade de assistir a falas de dois renomados autores no campo da Literatura/Estudos da Linguagem: Roger Chartier e Carlos Reis.

Mas foi a fala do primeiro (em um português difícil, mas esforçado) que mais me motivou a a refletir. Como se sabe, um dos assuntos na “moda” é falar das novas mídias e dos novos formatos através dos quais se lê hoje em dia. Para Chartier a mudança no suporte – do papel para o computador, not/netbook, iPad, tablet, etc. – é significativa para um novo olhar acerca da produção, e, especialmente, da recepção de Literatura.

Além disso, também pude assistir a algumas mesas e apresentações acerca do tema, que na minha humilde opinião ainda engatinha e, principalmente, aborda as novas tecnologias com um olhar deslumbrado, não raro, estranhado acerca do fenômeno.

Primeiramente, o que me intriga é que por mais que estejamos falando em mudança do suporte e de mídia, na maioria das vezes, o formato se mantém. Por exemplo, o famigerado e-book nada mais é do que um livro convencional digitalizado. Se pensarmos, também, que há muitos softwares que tentam fazer com que o e-book aja como um livro “normal” – virando a página, simulando a capa, a letra, etc. – mais nos damos conta de nosso apego à forma convencional de leitura. Houve mudança na forma como se lê? Sem dúvida. Mas a questão é: essa é uma mudança literária ou continuamos reproduzindo antigos formatos, apenas nos adaptando ao conforto/praticidade que as tecnologias nos proporcionam? Acredito que segunda desponte com mais força.

Porém, a primeira proposição acima também pode ser correta quando pensamos no conceito de hipertexto. Segundo a Wikipedia (sentiram a ironia?), hipertexto é o termo que remete a um texto em formato digital, ao qual se agregam outros conjuntos de informação na forma de blocos de textos, palavras, imagens ou sons, cujo acesso se dá através de referências específicas denominadas hiperlinks, ou simplesmente links. Ou seja, se há evolução na área literária a partir destes novos formatos, esta está na possibilidade de acessarmos novos textos, referências, imagens dentro do texto primeiro e assim entrarmos em um loop de informacionalidade/conhecimento que transcende aquele texto que iniciamos nossa leitura. Porém, durante o evento o que vi foi pessoas fugindo à questão do hipertexto como o diabo foge da cruz. É isso que me leva a seguinte questão:

Qual o lugar da crítica/reflexão literária nas “novas” mídias?

Ao que parece, assim como o livro “normal” a crítica acadêmica se mantém em seu lugar, parada, estática, analisando à distância um fenômeno em nome da tão propalada “objetividade científica”. Mas se não se está inserido no contexto é possível entendê-lo? O único espaço de reflexão da Literatura no meio virtual está relegado a pontuais blogs e/ou fóruns de discussão sem grande repercutibilidade. É claro que é possível, graças a ferramentas de busca, encontrar com mais facilidade artigos, livros e, até entrevistas, muitas vezes no já consagrado formato PDF. Mas isso é mera reprodução das antigas revistas e jornais acadêmicos. O que nos leva a uma frase excelente que ouvi durante o evento atribuída ao teórico Wim Veen:

“A Internet é, para aqueles da nossa geração, uma imensa biblioteca.”

OK, a frase pode não ter sido exatamente esta, mas a ideia é bastante pertinente. Para aqueles que não “nasceram com um computador no colo”, o mundo virtual é mera reprodutibilidade de produtos e ideias a que estão acostumados. No caso, da Literatura a Internet serve para disponibilização, mas não para produção de conhecimento.

É claro que estou falando aqui de duas coisas ligadas, mas distintas. Uma é a produção, formatação, distribuição e consumo de Literatura em ambientes virtuais e a consequente reflexão acerca disto. Outra é a reflexão da Literatura como um todo e sua, talvez possível, inserção em tais ambientes.

Tais questões me instigam e o evento em Maringá – que não foi de todo ruim – ficou longe de pôr alguma luz sobre elas. Pelo contrário, suscitaram mais dúvidas e questionamentos e me motivaram a ir em frente com alguns textos que eu havia deixado pelo meio do caminho e que retomarei para divulgar por aqui. Quanto às respostas, me recuso a bater o martelo, a ser definitivo. Acho que há muito ainda que se discutir e a reflexão se faz extremamente necessária.

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2 respostas para Maringá, o eu daqui e eu lá

  1. Desde que conversamos eu entendi que na verdade tu estas propondo um desafio. não sei até que ponto eu entendi, mas vamos lá.

    A ” produção, formatação, distribuição e consumo de Literatura em ambientes virtuais e a consequente reflexão acerca disto” se liga a Sociologia da Literatura (filtrada pelas propostas e conceitos da História Cultural). Desculpe-me a ignorância, mas a Sociologia da Literatura não é uma forma de Crítica Literária? Ao meu ver é, ainda que não trate do texto em sua “imanência”. Se for, ela é uma corrente da Crítica que busca dar conta desses novos processos.

    Pensando com Chartier, a partir do momento em que há a mudança de suporte (virtual -> digital) e circulação (os textos necessitando mais da rede do que das editoras e seus canais) consequentemente há uma mudança em dois vértices do “triângulo do sistema” produção-obra-recepção”. Dois exemplos, ainda que hipotéticos e lugares comum, servem:

    1) no vértice da recepção, o fluxo constante de texto tende a aumentar a oferta de leitura mais diminui a nossa capacidade de degustação do que nos é oferecido, ou seja, a leitura ficou mais “rasa”

    ; 2) no vértice da produção, o fim do monopólio editorial permite circular um número muito maior da “variação” da literatura sem passar por crivo de ninguém que não seja o próprio escritor.

    Mas eu concordo contigo, Paulo. Essa corrente só “arranha” a questão. O que mais pode impactar, que é a forma (e isso não é só para mim e para ti, é para o Chartier também), mudou muito pouco, para não ser mais radical e não dizer que não mudou nada. Um e-book ganha seu formato de arquivo e simula um livro tal qual eu tivesse ele na mão. Te dei o exemplo dos livros do Saramago que eu li, que tinham sua disposição tipográfica tal qual o livro da Cia das Letras. Nisso, cadê a mudança?

    Se me volto um pouco para a longa duração da estrutura das mentalidades, me dou conta que uma mudança radical pelo simples surgimento de uma nova tecnologia, como tem sido profetizada, não existe. Muito da incredulidade e da credulidade frente as mídias digitais, em posições tipicamente “Apocalípticas” ou “Integradas”, ao meu ver, e acho teu também, não estão dando conta do que está acontecendo exatamente por esse erro de pensamento.

    “Apocalípticos”, por achar que absolutamente nada mudou, enxergam a internet como uma simples biblioteca ou como algo completamente anárquico, sentindo falta do “cheirinho do papel”. Ao meu ver, esse tipo de pensamento não se dá conta que a mudança pode se estabelecer a longo prazo, na longa duração.

    “Integrados” , por não quererem ficar para trás, fazem loas a tecnologia, dizem que tudo mudou, criam aulas “Star Wars” e não percebem, imersos em seus entusiasmos, que as novas mídias muito mais apontam para a possibilidade de novas coisas do que necessariamente as inauguram. Ou seja, erram como os “Apocalípticos” ao não perceber que a mudança não é abrupta, mas gradual.

    No fim, teu desafio, que eu resumo como “Qual é o papel da crítica na Era da Informação?”, é o que nosso tempo nos relega como estudantes em formação.

    Abraço!

  2. Rody Cáceres disse:

    Credo! Vocês estão demais pra mim.. kkkk!

    Olmedo, curti tua coluna no FIta Amarela. To esperando a próxima. Me avisa quando sair…

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