Eu sei de tudo (e meu Tumblr também)

Há um tempo estava conversando com alguém sobre um conto do Verissimo em que um personagem alegava “saber de tudo” e, por conta disso, tinha que enfrentar as consequências desta mentirinha. No meio do papo (descobri nos comentários que a conversa foi com a Suellen), começamos a refletir o quão banalizado o Luis Fernando Verissimo se tornou em tempos de Google e Facebook. Mais do que isso, Verissimo, em tempos de internet, é quase sinônimo de fonte não-confiável.

Essa conversa me remeteu imediatamente ao meu Tumblr – para quem não conhece é uma espécie de microblog – o qual criei como forma de “matar a cobra e mostrar e pau” no campo da ficção. Não por acaso, o referido site chama-se Fiction Adicct. Ou seja, a ideia é mostrar a fonte de determinadas citações – algumas consagradas, outras obscuras – e, assim, dirimir as dúvidas existentes quanto à autoria (ou veracidade) de um texto.

Voltando à conversa do início do texto e ao texto do início do texto (êêê, viva a confusão!), lembro que falávamos o quão difícil é achar um texto do Verissimo na Internet e ter certeza de que o texto é daquele jeito mesmo, sem alterações – sem contar a incerteza de saber se é dele, mesmo. Porém, para minha surpresa, outro dia mexendo no meu humilde acervo pego um exemplar que tenho do Comédias da Vida Privada e não é que o tal texto consta do volume que tenho em casa! E outra surpresa: o título do conto/crônica é Brincadeira! (eu podia jurar que era “Eu sei de tudo”, isso só mostra o quão fácil é produzir uma falácia na Internet).

Então, como forma de fazer um jabá para meu outro site homenagear Luis Fernando Verissimo, usarei aqui o recurso que uso no meu Tumblr: posto o texto e a imagem da página do livro que foi retirado. Abaixo vai a referência do livro! Detalhe importante: minha intenção não é “piratear” o texto, mas instigar a leitura, a busca pelo texto. Portanto, se você gostar do que irá ler, compre um livro! 🙂

 

BRINCADEIRA

 

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:

– Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

– Como é que você soube?

– Não interessa. Sei de tudo.

– Me faz um favor. Não espalha.

– Vou pensar.

– Por amor de Deus.

– Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

– Sei de tudo.

– Co-omo?

– Sei de tudo.

-Tudo o quê?

– Você sabe.

– Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

– Alguém mais sabe?

Outras se tomavam agressivas:

– Está bem, você sabe. E daí?

– Daí, nada. Só queria que você soubesse que eu sei.

– Se você contar para alguém, eu ….

– Depende de você.

– De mim, como?

– Se você andar na linha, eu não conto.

– Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

– Eu sei de tudo.

-Tudo o quê?

– Você sabe.

– Não sei. O que é que você sabe?

– Não se faça de inocente.

– Mas eu realmente não sei.

– Vem com essa.

– Você não sabe de nada.

– Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber, mas eu é que não sei o que é?

– Não existe nada.

– Olha que eu vou espalhar …

– Pode espalhar que é mentira.

– Como é que você sabe o que eu vou espalhar?

– Qualquer coisa que você espalhar será mentira.

– Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.

– Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.

– Aquilo o quê?

– Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

– Você contou para alguém?

-Ainda não.

– Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança.

Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.

– Por que eu? – quis saber.

– A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.

– Por quê?

– Pela sua discrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:

– Sei de tudo.

-Co-como?

– Sei de tudo.

-Tudo o quê?

– Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:

– Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não tem dúvidas sobre o motivo.

Sabia demais.

Retirado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Seleção de crônicas do livro Comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 74-76

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3 respostas para Eu sei de tudo (e meu Tumblr também)

  1. Marcos disse:

    muito, muito bom!

  2. eu adoooro esse conto! 😀 siim, a pessoa sou eu! 😀

  3. Paulo Olmedo disse:

    Imaginei! hehehe vou dar o devido crédito, então!

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