Oscar e a novela que não tem fim…

Desde que a Lei Pelé entrou em vigor, a “escravidão” dos jogadores de futebol acabou. Em contrapartida, os clubes ficaram a mercê de empresários e dos caprichos dos jogadores. A única garantia que um clube tem, nos tempos atuais, é o contrato. Mas isso não faz do clube um coitado, pelo contrário, os clubes ainda conseguem exercer seu poder contra jogadores de qualidade inferior, emprestando-os, colocando-os a treinar em separado. Porém, no que tange BONS jogadores, o clube não tem muita saída a não ser se garantir em contrato de que não vai perder o jogador – ou dinheiro. E esta é uma história de dois contratos. E não se engane, nesta história não há mocinhos ou bandidos.

A novela Oscar começou muito antes de o garoto chegar no Beira-Rio, antes mesmo de eles estrear como profissional. Quem acompanha futebol sabe que o imbróglio entre São Paulo e Oscar é antigo. Muito antes de se saber, em campo, quem é Oscar – e do que ele é capaz – já se sabia que ele estava na Justiça para se desvincular do time paulista. E só sendo muito inocente para acreditar que o São Paulo era um mau empregador, um devedor de tributos, ou algo do tipo. Fato é que Oscar, ainda garoto e sem orientação, havia assinado um contrato desvantajoso para ele, ainda mais tendo em vista a qualidade do seu futebol. Quando deu-se conta que estava desvalorizado, e aí com a devida orientação, Oscar chiou. Porém, o tal contrato tinha duração de cinco anos e uma vez assinado, babau. Nessa peleia inicial, o esperto São Paulo conseguiu superar Oscar.

Porém, como disse anteriormente, Oscar a essa altura já estava bem orientado. E foi numa brecha que conseguiu vencer na Justiça e se livrar do tal contrato ruim. Me custa acreditar que o São Paulo não pagava salários – até porque Oscar era barato para o São Paulo – ao garoto, porém não duvido que o time paulista tenha se descuidado quanto aos meios legais – FGTS, 13º sálario – já que é sabido que os clubes não costumam priorizar as leis trabalhistas, uma vez que no futebol o que vale, mesmo, é o tal “contrato de imagem”. Com a bobeada do São Paulo no quesito legal (trabalhista), Oscar saiu vencedor.

Quando Oscar se desvinculou – lembro bem – houve um burburinho acerca de quem assumiria a bronca, já que se esperava que o São Paulo não deixaria barato (a tal gravação de secretária eletrônica do Marco Aurélio Cunha, que longe de ser uma ameaça como tentaram veicular, já apontava para isso). Primeiro, porque ninguém gosta de perder jogador de graça, especialmente se o jogador tiver potencial para ser um craque – e render milhões ao cofre. Segundo, porque pior do que perder um jogador (de graça) é perde-lo na Justiça. Nenhum clube costuma aceitar isso, ainda mais em um esporte que envolve milhões e que, curiosamente, costuma punir clubes que apelam para a Justiça “Comum”.

Mas o Inter assumiu bronca. Talvez mordido por outros jogadores que o São Paulo “roubou” – sim, o São Paulo é, também, mestre na arte de aliciar jogadores, atravessar negócios e outras ações discutíveis. Porém, todo mundo sabia que era questão de tempo para que a decisão judicial tivesse um revés. E confesso que achei que seria antes.

Alguns anos se passaram até que a decisão veio. Oscar deveria voltar para o São Paulo. Nesse meio tempo o garoto brilhou com a camisa do Inter e da Seleção, sendo decisivo no Mundial Sub-20, por exemplo. Era óbvio que Oscar estava adaptado ao Inter e daqui não ia querer sair. Mesmo com a CBF restabelecendo seu vínculo com o time paulista. Daí então muitas coisas foram faladas, desde uma pretensa escravidão – mas se ele estava regularizado ao São Paulo, ele não estava trabalhando por que não queria, certo? – até a chiadeira paulista que queria que ele voltasse ao clube.

Esta semana, um ministro de TST, genro de um conselheiro do Inter, concedeu a Oscar um habeas corpus que lhe permite que jogue onde quiser. A CBF, que costuma ser protecionista com os clubes paulistas, custou a revalidar o vínculo do atleta. Acredito que mais do que um protecionismo específico ao São Paulo, a CBF teme que a decisão do ministro abra um precedente perigoso, uma jurisprudência. Ou seja, se o jogador joga onde quiser, os tais contratos – que falei lá em cima – de nada valem. Para que contrato, se o jogador pode romper a qualquer momento e ir para onde quiser?

O São Paulo, mesmo que não admita, sabe que Oscar não vai voltar para o Morumbi. O que o time paulista quer é um justo ressarcimento, já que seu patrimônio (o jogador) foi levado totalmente de graça. Já o Inter, que comprou 50% do “passe”, recusa-se a pagar os valores absurdos que o São Paulo exige. Parece uma novela sem fim. Algumas soluções, aparentemente, simples – como o Inter ceder 20 ou 30% dos valores econômicos de Oscar em uma futura venda – sequer foram cogitadas.

Hoje, o vínculo de Oscar com o Inter foi restabelecido no BID. Porém, o clube gaúcho teme colocá-lo em campo. Com decisões voláteis e constantes da Justiça, sabe-se lá o que a escalação do jogador pode acarretar no futuro. Não dá para dizer que o Inter não sabia do risco desde o início, também não dá para dizer que não valeu a pena ter se arriscado.

Enfim, nessa história sem heróis ou vilões, quem perde é o torcedor, que fica privado de ver o futebol do meia – seja no Inter, seja na Seleção. E, claro, Oscar, como um castigo (acredito que justo) por quebrar a santidade do contrato, talvez a única garantia que um clube brasileiro tem de que, de um dia para outro, seus jogadores não migrarão para outros clubes.

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2 respostas para Oscar e a novela que não tem fim…

  1. A questão é simples, é só o Oscar pagar pro São Paulo o que deve pra ser liberado do contrato.

    Só que o São Paulo não pode cobrar o que quer nem valorizar o jogador, é o valor original, do primeiro contrato.

    O Inter nem era pra estar no rolo, mas uma vez que se envolveu, podia negociar mais, pagar um pouco além do valor previsto originalmente, e tentar resolver logo. Isso me parece que até aconteceu, mas como o presidente do São Paulo é arrogante, não teve negociação. O cara queria que o Oscar voltasse na marra, pra servir de exemplo pra outros problemas deles lá com empresários.

  2. Paulo Olmedo disse:

    É claro que há arrogância. Há também uma tentativa de “esperteza”, de achar que a Justiça vai resolver só pra um lado e o outro vai perder. Se não sentarem pra chegar num acordo, essa novela ainda vai muito mais longe.

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