Nada me faltará, de Lourenço Mutarelli

Tive a oportunidade de ler, neste fim-de-semana, graças a bondade da minha amiga Suellen Rubira (dona do Freak in the Sky), o último trabalho literário de Lourenço Mutarelli (vulgo “meu” autor).

Mais uma vez, o autor paulistano foi publicado pela Companhia das Letras, o que também indica certa noção de trabalho por demanda – grandes editoras, amigo. E mais uma vez, Mutarelli repete certas sensações.

A premissa do livro é boa, um sujeito – Paulo Maturello, talvez um trocadilho com o nome do autor – reaparece após um ano “sumido”. Junto com ele haviam sumido, também, sua esposa e sua filha. O detalhe é que para Paulo esse tempo não passou, ou seja, para ele o um ano atrás foi ontem. As reações de seus amigos e familiares irritam Paulo, pois para ele não houve incidente algum. Há também o fato de que apenas ele voltou, sua mulher e filha continuam desaparecidas, o que chama a atenção da polícia.

Apesar de todo esse cenário, o personagem principal declara-se “vazio” quanto ao acontecimento. Sim, ele não sente falta da filha e da esposa (talvez aí se explique o enigmático título), o que faz com que seus próximos se aflijam mais ainda com toda a situação.

No campo mais formal chama à atenção o fato de que não há narrador. Há apenas personagens falando em frases curtas – às vezes um tanto difíceis de distinguir quem é quem – em um dialogismo pra Bakhtin nenhum por defeito. Confesso que isso me deixou um pouco incomodado. Por mais (pós)moderno que seja, o mínimo que se espera (eu, pelo menos, sim) é que em um romance haja narrador. Porém, essas inovações ou experiências não chegam a ser novidade na produção literária de Mutarelli: “O Natimorto”, por exemplo, é praticamente um híbrido entre gênero dramático e romanesco.

Voltando ao romance, mesmo com essa estrutura estranha a história nos pega de jeito, e é difícil não se apegar ao “problema” de Paulo e confabular sobre o que teria acontecido naquela história maluca. E aí que vem o grande pecado, na minha opinião, do livro de Lourenço Mutarelli. O final é aberto demais. Inconclusivo demais. Chega a soar um tanto preguiçoso. Temos uma ótima história que é terminada sem mais nem menos. Não me entenda mal, eu gosto de um final aberto, com margem para que o leitor tire suas conclusões ou imagine o seu final. Porém, e assim como em “A arte de produzir efeito sem causa” e “Miguel e os Demônios”, o final do livro é escancarado, de tão aberto. E acho que poderia ter sido melhor.

Sendo este o quinto livro que leio do autor, ainda acho que seu romance de estreia “O Cheiro do Ralo” é o melhor de todos, talvez pelo fato de publicar em uma escritora grande, como disse acima, Mutarelli não tenha tempo para produzir uma grande obra, à altura de seu primeira romance (mesmo que esse tenha sido escrito em uma semana, durante o Carnaval). Mas o potencial o autor tem, e mesmo com um ou outro problema “Nada me faltará” não chega ser ruim, pelo contrário. Só acho que é aquém do melhor Lourenço Mutarelli.

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3 respostas para Nada me faltará, de Lourenço Mutarelli

  1. É Paulo Maturello… hehehe

    Bom, esse foi o primeiro livro dele que li, e adorei mais pela ideia base (o fato do cara passar um ano sumido e voltar) do que aquele final! Mas, como diz o professor… o romance sempre tem uma continuação… quem sabe a gente não escreve? haha =D

  2. Paulo Olmedo disse:

    obrigado pela percepção, me confundi nos trocadalho e nem tinha visto huauhauha

    bom, agora que tu vai imergir na poética do Mutarelli talvez tu te acostume com isso (ou não)

  3. eu também me compliquei no trocadilho quando fui te falar que o sobrenome do personagem era parecido com o do Lourenço! ahusiahs aliás, acho que foi isso que te confundiu.

    esse findi vou ler o natimorto e ver colé. =P

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