Um novo projeto

Ano vai terminando, projetos vão se encerrando – ou em fase de – e a sede por novidade não pára (chupa, reforma ortográfica). Ano passado lancei meu primeiro livro de contos, a razão do absurdo, e esse ano colhi os frutos. Este ano não teve livro, talvez não terá um outro por mais alguns anos, mas ideias não faltaram. Além da inspiradora participação no Grupo Invitro, do coletivo Fita Amarela, outras ideias de projeto solo pipocaram na minha mente. Uma delas, vem do ano passado e explico. Durante a breve oficina que fiz com o professor e escritor Charles Kiefer produzi um texto de acordo com uma proposta que ele nos apresentou: escrever uma crônica que relatasse a nossa lembrança mais longínqua. Meu texto – o reproduzirei abaixo – acabou sendo o que Kiefer chama de “cronto”, uma mistura entre crônica e conto. Pudera, não acredito que a crônica, um gênero basicamente brasileiro, prescinda de uma dose de ficção, afinal rememorar é tarefa a qual nos é difícil sermos fidedignos. Tem muita teoria por aí sobre a memória e não pretendo discorrer sobre o tema. Só pare e pense, você seria capaz de contar uma história de sua infância sem recorrer ao recurso (perdão pela redundância) da ficção? De minha parte, acho um feito impossível. E por isso mesmo, extremamente instigante. E foi assim que tive a ideia de recuperar algumas histórias da minha infância. Boas histórias, acredito eu. Mas deixo vocês que sejam os juízes. Sim, pois agora teremos essas histórias, aqui, disponíveis. Deixem eu me empertigar, limpar a garganta e anunciar meu novo projeto: Um retrato do artista quando guri.

Nesse novo blog, terá todos as informações necessárias para se entender o porquê do projeto (que foi pensado pra ser livro, até). No entanto, acho que vocês podem ter uma ideia lendo minha crônica/conto que escrevi para o oficina do Charles Kiefer. Sem mais delongas aí vai o texto e espero vocês no blog novo:

A consciência da invenção

Quais são minhas lembranças e quais são as construções que fiz a partir de histórias que me contaram? O que de fato vivi e o que, engenhosamente, inventei? Meus pais contam que eu era um guri impossível. Corre a título de história de família duas ou três aventuras mirabolantes, da qual sou protagonista. Uma delas remonta a uma fuga marota na qual segui meu irmão, em um dia de chuva, até um bar, onde ele estava com alguns amigos. Outra dá conta que sentei em plena via expressa, literalmente parando o trânsito, só sendo interrompido, talvez à minha revelia, quando um motorista de ônibus conduziu-me até minha casa, parando por alguns instantes seu ofício. Mas aí que vem a problemática inicial. Contadas assim, desprovidas de sentimento, tais histórias parecem requentadas, realmente repassadas por mim tendo como fonte aqueles que me contaram. No entanto, parece-me que minha mente prega peças e quando lhes conto tais histórias me vejo nitidamente sentado com um caminhãozinho fazendo “burrum” em frente a uma fila de veículos ou sinto como se fosse agora em minha pele o tilintar molhado dos pingos daquela outra chuvosa fuga. O que de fato me lembro e o que minha mente construiu por se tratar de uma boa história digna de lembrança? Tais histórias ocorrem, sem dúvida, em minha primeira infância, talvez entre meus dois e três anos. Como posso então lembrar? Já eu teria me dado conta de minha existência? De fato, essas histórias que elenquei, por mais que minha mente teime em trazê-las à memória, tenho que admitir que sequer tenho lembrança. Tratam-se daquelas construções das quais falei, embaladas pela forte vontade – talvez de ilusionista, talvez de contador de histórias – de ter feito parte delas. Mesmo tendo, de fato, feito. Mas fica um sentimento de não-pertencimento, quase um protagonismo inventado por um coadjuvante invejoso. Se eu sequer lembro dessas histórias por que são elas tão importantes? Pois, de acordo com meus pais (e admitida a não-lembrança a legitimação da informação faz-se necessária), foram estes fatos que os fizeram pôr um cadeado no portão. Sim, caros amigos, trancafiaram-me. E aí está minha mais longínqua memória. Legítima, sem o subterfúgio da imaginação. Não raro me escapa entre os meandros da lembrança aquele portão fechado, cadeado a postos, evitando a repetição de algo que eu sequer lembrava ter cometido. Acho que aí que tomei consciência de mim – talvez possa ter sido mais tarde, mas ajudado por minha perspectiva atual acredito ser um bom momento para tanto. Tudo bem, sem exageros ou invenções. Mas é inegável que aquele momento frente à perda de liberdade é, no mínimo, representativo. Eu importava. Não poderia ser perdido ou machucado perante um perigo que minha pueril busca por liberdade não imaginava. Eu importava. A ponto de se fechar, até mesmo para visitas, a principal entrada para nossa casa. Eu importava. O que me arrenegava, já que para mim aquele cadeado era o primeiro impeditivo de muitos que a vida social ainda me imporia (disso, obviamente, eu ainda não tinha consciência). E acho que assim se fizeram minhas lembranças, um misto do meu eu atual com o que meu cérebro insiste em revelar, em pequenos flashes, imagens ligeiras (como a de um portão fechado a cadeado em uma tarde de sol). Há invenção, então? Talvez. Até onde deixo meu instinto de invenção tomar conta de minhas lembranças me é impossível distinguir. Porém como acho que tomei consciência de mim a partir de um ato arbitrário, frente a um impedimento, não seria justo impor o mesmo fechamento para minhas lembranças. A elas deixo o portão da imaginação invariavelmente aberto.

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Chinoca

Seu senhor sabe que não sou de andança? Nunca me apeteceu. Gostava de ficar em casa, na sombra dos arvoredos, comendo fruta do pé. Minha Chinoca (assim eu a chamava) fazia um mate bem forte, não importava como estava o tempo, e  sentava comigo, em silêncio. Barulho só dos passarinhos e da bomba anunciando o mate que findava. A sombra preferida da Chinoca era a de uma árvore estranha que a gente tinha no fundo do campo. A danada tinha sido plantada pela mão da Chinoca mesmo. E era danada porque, mesmo mais novas que as outras, cresceu rápido. E enquanto crescia, se enrabichava nas outras, mais velhas, que tinha por perto. A Chinoca dizia que aquela era uma árvore abraçadeira, afetuosa, que gostava de alegrar as outras. Acho que era por isso que a Chinoca gostava tanto dela, nisso se pareciam. Eu vou lhe contar um segredo. Nunca gostei de praia. O senhor não vai se ofender se eu disser que nunca gostei muito de gente? Gostava dos meus bichos, soltos nos campos, das frutas maduras das árvores velhas e de suas sombras arejadas, e do mate quente. Mas gostava mesmo, assim de doer o peito, era da minha Chinoca. Hoje faz um ano que ela se foi. Já lhe falei que não gosto de praia? Não, o senhor se confundiu, esse não era o segredo. O segredo, mesmo, é o que a Chinoca me pediu quando ficou doente. O senhor me desculpe se pareço grosso. Sou só um velho do mato que nunca gostou de andar por aí, de brincar na areia da praia e de ver gente sorrindo pelas ruas agitadas. Mas a Chinoca me pediu. Me fez prometer. Disse ela que eu deveria sair, pelo menos uma vez por ano. Ir na praia, molhar o garrão sujo de areia na onda que sobe. E hoje faz um ano. E hoje, pela primeira vez, eu cumpri o prometido e vim nessa praia que é a maior de todas. E sabe o senhor o que eu vi? Uma árvore, parecida com aquela que a Chinoca gostava. Parecida mas diferente. Essa daqui era uma árvore que era duas. Grudadas, presas uma à outra por toda a eternidade. Como eu e a Chinoca. E eu não quero que o senhor me acredite, mas lhe garanto que enquanto eu via aquelas duas árvores, como se abraçando eu senti a Chinoca me abraçar, também. Ela como se ela tivesse ali, em silêncio, como sempre. E eu sei que não vou viver pra sempre, meu fim até está perto. E talvez eu encontre a Chinoca quando me for. Mas de uma coisa tenho certeza. Enquanto eu for vivo, vou voltar muito aqui. Não por causa da água fria das ondas. Ou da areia quente do sol. Ou da algazarra na avenida. Mas por causa daquela árvore. Só pra me sentir abraçado de novo.

Árvore

(Esse texto foi escrito como parte do projeto InVitro, do Coletivo Fita Amarela, a partir de proposta feita pelo participante André Barros – que além de escritor é diretor e ator de teatro)

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A velha das ervas, um projeto do passado e do futuro [DOWNLOAD]

Em 2008, estava eu em minha primeira (frustrada) aventura pelo mundo da pós-graduação. Como a então inaptidão ao mundo acadêmico me frustrava, me sentia compelido a buscar outras atividades, até mesmo como desculpa procrastinadora para não me ocupar daquilo que me causava a frustração. Nesse contexto que entrei para o Grupo de Estudos em Animação, da FURG, que havia sido recém iniciado por iniciativa de cabeças pensantes como Wagner Passos, Alisson Affonso e Ozi e que contava com grandes artistas como Eduardo Porciúncula, Anderson Mendonça, Tôni Rabelo, entre outros.

Porém, apesar do privilégio de ter participado e frequentado reuniões com caras desse nível, infelizmente minha participação não foi tão efetiva. É claro que aprendi muita coisa, mas uma contribuição, real, minha não surgiu como forma de pagamento. Talvez ideias soltas, palpites, mas nada muito além disso.

Enfim, como dizia, a participação neste grupo foi uma experiência da qual muito me orgulho, especialmente por ter conhecido e convivido com tanta gente criativa. O grupo, mesmo tendo uma duração curta para seu tanto de potencial, teve seu sucesso, inclusive vencendo o renomado AnimaMundi na categoria “celular”, com o vídeo Maracão, e tendo o vídeo Poeminho do Contra exibido na RBS, no projeto Histórias Curtas.

Mas o assunto desse post não é o GEA (poderia ser, mas não é). No entanto, essa introdução se faz necessária pelo simples fato de que o projeto “A velha das ervas” – e minha participação nele – tem uma relação muito grande com o grupo de animação. Dentre as figuras que frequentava o grupo estava um guri – à época – de grande talento e codinome Índio. O Índio era aluno do ArtEstação e tinha participado, através da oficina que frequentava lá, de uma atividade de visita à Ilha dos Marinheiros e ouvido lá várias histórias, lendas, do pessoal da localidade. Estas lendas, tão significativas e curiosas, motivaram o pessoal do ArtEstação, através de iniciativa da Célia Pereira e do Miguel Isoldi, a produzir o que, a princípio, seria uma série de livretos contendo variadas lendas da Ilha dos Marinheiros.

Não sei bem o motivo, mas o Índio foi convidado a ilustrar um desses livretos, o primeiro deles (que, infelizmente, acabou sendo o único), o que contava a lenda da Velha das Ervas. Como o Índio frequentava o GEA-FURG acabou pedindo ajuda para um dos roteiristas do grupo – ainda circulavam por lá com muitas ideias, mas pouco intimidade para o desenho o André Darsie Oliveira, o Sandro Martins Costa Mendes e o Caio César -, no caso, eu. E foi assim que acabei entrando no projeto “A velha das ervas”.

O processo não foi muito difícil. O Índio me contou a lenda e eu produzi uma série de frases, que combinassem com uma ilustração de uma página, e tivessem uma narratividade coerente, além de criar um clima de suspense necessário àquela história. Com base no que tinha ouvido dos moradores da Ilha e nas frases que eu criei, o Índio fez as – ótimas – ilustrações e, assim, o livro saiu do – ou para o – papel. A edição ainda teve a colaboração do grande Marcelo Calheiros, à época professor da FURG e do ArtEstação, e do Alisson Affonso, fazendo a editoração, diagramação e costura dos não muitos exemplares.

O livro acabou sendo lançado na Feira do Livro do Cassino de 2009 e eu, orgulhosamente, estava lá, para a primeira sessão de autógrafos da minha vida. Na companhia do Índio, que inteligentemente fez um carimbo com a icônica imagem da velha do título, passamos a caneta em vários livrinhos.

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O livro foi um sucesso na Feira, mas infelizmente não havia muitos exemplares – eu mesmo só tenho um. Até hoje, pessoas me perguntam sobre o livro e gostaria de adquirir, mas infelizmente não sei como – nem sei se tem como, acho que não. Então, com a devida autorização dos responsáveis, resolvi disponibilizar o livro para download.

Então, galera, antes tarde do que nunca, com vocês “A velha das ervas”, de Ricardo Índio e Paulo Olmedo.

A velha das ErvasA VELHA DAS ERVAS

Mas o título do post fala em futuro, não é? Pois então, o projeto não parou por aí. Ano passado, por iniciativa do Miguel Isoldi o então livro virou um curta! O próprio Miguel compôs uma música baseada no material anterior. O curta foi selecionado através de um edital e, por enquanto, ainda não está disponível online. No entanto, já é possível ver um making of, a direção é de Law Tissot, do trabalho.

Então, a Velha das Ervas não morreu. Anda por aí, ainda, rendendo frutos. E eu continuo orgulhoso, por ter feito parte disso.

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O Oscar que importa

Hoje à noite teremos mais uma cerimônia de entrega do Oscar. Por mais que se diga que o Oscar é pop demais, que não tem critérios técnicos, ou gosto duvidoso, eu, e acredito muito mais gente, adoro o Oscar. E quem nunca viu um filme só por que ele fez parte do rol dos indicados ou mesmo usou o argumento “esse filme ganhou/foi indicado ao Oscar” para legitimar uma escolha? Assim, sem dúvida, estarei ligado hoje à noite, apenas esperando pelo último envelope, o que revelará ao mundo o grande vencedor, o de Melhor Filme, certo? Errado. Esse não é o Oscar que importa.

Pois bem, o que eu disse acima sobre o Oscar ter gosto duvidoso ou ser popularesco não é de todo mentira. A verdade é que a Academia que distribui o Oscar tem suas idiossincrasias e não é novidade pra ninguém que, muitas vezes, há interesses em jogo, ou simplesmente falta de vontade de inovar, de ousar, preferir o tradicional “fechadinho” ao insinuante “novo”. Pois bem, são coisas como estas que fazem aquele que deveria ser o maior prêmio da noite, o de Melhor Filme, se tornar algo quase enfadonho, previsível. Porém, com toda a pompa e distinção que o prêmio de Melhor Filme carrega e faz com que quase não abra espaço para novidades, existe um outro premiado muito menos “pesado”, no qual a Academia se sente livre para ser ousada, porém este mesmo premiado, por conta deste “escanteiamento”, é, via de regra, subestimado. Trata-se do Oscar de Melhor Roteiro Original.

Não me leve a mal, eu não tenho nada contra a premiação para Roteiro Adaptado, porém, confesso, acho muito difícil que uma adaptação cinematográfica consiga superar seu material original (e Adaptação, um indicado a Roteiro Adaptado (?), que o diga). Não posso negar que excelentes filmes adventos de material pré-existente, mas meu gosto pelo novo e pelo original (com toda a problemática que esta palavra traz), combinado com os argumentos acima me fazem disser, sem medo de errar, o Oscar de Melhor Roteiro Original é o Oscar que importa. Este, sim, é o filme do ano! Aquele que espero ansioso pra ver no cinema ou que colocaria no topo de uma watchlist.

Acompanhe meu raciocínio, ao longo dos anos alguns filmes superestimados acabam levando o Oscar de Melhor Filme, seja por qual motivo. Porém, se você olhar bem a lista de vencedores, vai encontrar pequenas pérolas cinematográficas. Que tal uma lista com Fargo (Irmãos Coen), Pulp Fiction (Tarantino), Fale com Ela (Almodóvar), Juno, Pequena Miss Sunshine, Encontros e Desencontros (com Bill Murray!), Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Quase famosos, entre outros, ficando apenas nas duas últimas décadas? Todos estes são vencedores de Melhor Roteiro Original. E, para encerrar, para não dizer que não falei do mestre, há a questão Woody Allen.

Quantos Oscar de Melhor Filme o genial diretor ganhou? Um (Annie Hall)! E quantos de Roteiro Original? Três (Annie Hall, Hanna e as Irmãs e Meia-noite em Paris)! Precisa dizer algo mais?

Este ano não consegui ver muitos filmes indicados ao Oscar (alguns nas categorias técnicas, como O Hobbit), mas acredito que Lincoln e Argo devem dominar a premiação. Inclusive ganhando o “desejado” Oscar de Melhor Filme. Porém, minhas atenções estarão voltadas para o importantísssimo, mesmo subestimado, Roteiro Original, no qual torço por duas figurinhas carimbadas dentre os meus diretores preferidos: Quentin Tarantino (Django Livre) e Wes Anderson (Moonrise Kingdown). Tarantino já ganhou uma vez (faz 18 anos, é verdade), bem que podia deixar essa pro Wes Anderson. Mas qualquer um dos dois que leve, ficarei contente.

E podem dizer que é o meu instinto de escritor/roteirista falando, mas quem se importa em prestigiar um Titanic da vida, quando todo mundo sabe que, mesmo no Cinema, grandes histórias – e, portanto, grandes roteiros – é o que importa.

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O preço da arte

Há uma lenda urbana que dá conta de que arte é paixão, prazer, e que, por conta disso, não pode se vender. É claro que há um romantismo – e até uma questão ideológica – nesta afirmação, que vista de forma plana, sem pensar na complexidade da coisa toda, tem seu fundo de verdade. Porém, sempre há alguém para utilizar-se desta canhestra definição para praticar a exploração.

Outra definição, advinda do senso comum – por certo mal intencionado – é a de que artistas em formação precisam divulgar seu trabalho, portanto não poderiam cobrar muito e blá blá blá. Ou seja, mais uma desculpa para a exploração. E é engraçado ver como a divulgação é tão facilmente conduzida à exploração.

Eu não sou contra a divulgação, pelo contrário. Acredito que artistas podem, sim, distribuir seu trabalho de graça. Por exemplo, bandas disponibilizarem material para download, escritores terem blogs para divulgarem seus textos, artistas com sites para mostrarem seu traço e por aí vai. Porém, quando existe alguém querendo faturar em cima da sua “divulgação”, já não é mais pura e simples divulgação. Isso se chama exploração. Além disso, contrariando a lógica romântica, o artista propõe seu trabalho não fruto de uma inspiração divina, mas fruto de um esforço, que demanda recursos não só intelectuais mas também financeiros. Ou seja, o músico, o escritor, o artista plástico além de investir seu tempo em suas atividades, precisam dispor de instrumentos, livros, pincéis, respectivamente. E isso sendo o mais simplista possível – afinal as despesas vão muito além disso. Assim, por mais que eventualmente o artista disponibilize seu trabalho de graça, por fim, precisa ser remunerado, reembolsado (shows e CDs para os músicos, livros para os escritores, quadros/trabalhos gráficos para os artistas plásticos/desenhistas).

Em Rio Grande, além da manobra divulgação/exploração, há ainda a desvalorização natural do produto local. Por ser uma cidade do interior (provinciana?), volta e meia, questiona-se a qualidade do que aqui é produzido. No entanto, como mero espectador e observador digo que nada mais é que uma desculpa, ou talvez, “medo” do desconhecido. Em nossa cidade, produz-se arte da mais alta qualidade. Temos bandas de qualidade com reconhecimento regional e nacional, autores elogiados, artistas premiados. Por que diabos, então, se desvaloriza (ou tenta) o que é feito nessa ilha ao sul do sul do Brasil? A resposta é simples, desvalorizar, desdenhar, algo é o meio mais fácil para a exploração.

Bom, todo esse discurso só para comentar a atitude da organização da Festa do Mar. Esta é uma Festa tradicional na cidade, tão tradicional quanto a desvalorização dos talentos locais. As organizações anteriores não se inibiram de trazer atrações nacionais, que cobravam gordos cachês, enquanto o talento local recebia uma irrisória quantia a título de “divulgação”. E este ano não foi diferente. Pois bem, nossos amigos músicos cansaram, cansaram de não serem tratados com o devido respeito, cansaram de receber uma ajuda de custo quando, sabiam eles, mereciam um valor mais justo, de acordo com seus investimentos para produzirem uma música de qualidade. E assim foi proposto, em uma corrente de blogs, a partir da iniciativa do Eduardo Bozzetti, um boicote à Feira. O qual eu apoio totalmente.

E apoio por dois simples motivos. Primeiro, as ditas atrações desta festa nunca, de fato me atraíram, especialmente no que tange a música, com shows popularescos de gosto duvidoso – pro meu gosto, é claro. Segundo, porque se eu algum dia coloquei os pés na “tradicional” festa foi para prestigiar o talento local. Mas onde o talento local é desvalorizado, ele não merece estar. E eu, por consequência, também não vou. Diria que é um boicote fácil, já que a grande atração, pra mim, estará ausente.

É claro que sempre haverão aqueles que se dispõem a serem subjugados, é bem provável. Mas tenho absoluta certeza que os artistas que conheço, e respeito, não se submetem a tanto. O rol da minha preferência é formado por artistas de talento, mas acima de tudo de respeito. Respeito a sua própria arte e a seu próprio trabalho.

E pode até ser que a arte, em si, não tenha preço, mas é preciso ter mente que ela é fruto de trabalho, esforço, e este(s) não só podem como devem ser ressarcidos de maneira justa. Querer faturar sobre o esforço alheio não pode receber outro rótulo senão o da exploração.

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Archer, a melhor animação da atualidade

Esqueça The Simpsons. Family Guy, South Park ou American Dad. A melhor animação da atualidade tem o mesmo nome de seu protagonista: Sterling Archer.

Woooodhouse!

Woooodhouse!

E não sou eu quem digo isso, isso é que tenho lido em blogs de séries por aí afora. Apenas tive a oportunidade de comprovar tudo o que eu vinha lendo a respeito: Archer é imperdível!

Confesso que no início foi preciso um pouco de fé, e que custei a me acostumar com aqueles personagens e a, principalmente, assistir regularmente a uma animação.

Mas deixe-me explicar do que se trata. Sterling Archer, codinome Duquesa, é considerado o mais mortal agente secreto do mundo. Ele trabalha na agência secreta ISIS, cuja sede é numa lavanderia de fachada, chefiada por Malory Archer – ninguém menos do que sua própria mãe. A princípio o que pode parecer um Barney Stinson brincando de agente secreto – Archer é mulherengo, beberrão e totalmente sem-noção, além, é claro, de incrivelmente AWESOME (segundo ele próprio) – mostra-se uma aula de comédia, sem perdoar nada nem ninguém.

O que agrada em Archer é a falta de jeito dos personagens em interagir entre eles. Trata-se de um um bando de egocêntricos que são obrigados a conviver por conta do trabalho, mesmo que ninguém vá com a cara de ninguém. Cada um defende o seu e tenta ao máximo, evitar qualquer mínima forma de apego – o que acaba sendo inevitável. Outro ponto positivo da série é sua familiaridade com Arrested Development (uma das melhores séries de comédia já feita): Malory Archer é interpretada por Jessica Walter, também a matriarca de Arrest Development; Jeffrey Tambor, George Bluth Senior em AD, também faz algumas participações. Além disso o próprio criador, Adam Reed, classificou a série como “quando Arrested Development encontra James Bond”.

Mas o grande mérito de Archer está em seus personagens (e as atuações incríveis dos atores/atrizes que, somente com a voz, consegue passar o exato sentimento do personagem) e suas maluquices pessoais. Vamos aos principais deles:

Sterling Archer (voz de H. Jon Benjamin)

Archer é misógeno, machista, beberrão ao extremo, complexado com sua infância e obcecado por carros, whisky, animais exóticos e mulheres (não necessariamente nessa ordem). Sua falta de noção é evidente quando tem que lidar com outras pessoas, levando estas a constantemente chamá-lo de “asshole” (o que ele, de fato, é). Archer também costuma dar uma sabichão e fazer piadas (infames) com citações a filmes, livros e outros elementos da cultura pop. Outra “qualidade” de Archer é querer fazer piadas de quinta série com todos, o que o leva a policiar o que todos falam, volta e meia soltando um “phrasing”!

Malory Archer (voz de Jessica Walter)

Malory foi uma mulher linda. Porém, por continuar solteira e num cargo de superior ainda se acha tanto quanto já foi. Obviamente sem preparo para ser mãe, ela criou Archer “sozinha” –  a identidade do pai de Archer é um dos grandes mistérios da série – a seu jeito e com seus métodos (às vezes cruéis) de educação. Malory flerta com tudo que usa calças – causando o ciúme doentio de Archer – e pode fazer qualquer coisa para manter seu status. Além disso, bebe constantemente.

Lana Kane (voz de Aisha Tyler)

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Esqueça que é um personagem animado: essa é a mulher mais badass da TV atual. Auxiliada por suas mãos gigantes, Lana é uma das melhores agentes do mundo. Já teve um relacionamento com Archer e muitas das piadas advém dessa tensão sexual entre os dois. Mas Lana não é só periculosidade, ela é muito sexy e, ainda por cima, inteligente.

Além desses temos o contador e viciado em sexo (e ex-marido de Lana) Cyrill, a masoquista e chata em potencial Cheryl, a gerente de RH intrometida e caipira Pam, o agente gay Ray Gilette – trocadilhos por conta da casa – e o mordomo/babá de Archer, Woodhouse.

Archer recentemente voltou para sua quarta temporada e, acredite-me, vale muito a pena ver.

PS: Este post estava “engavetado” no blog, era pra ter saído muito antes (na Fall Season?), mas acabei esquecendo dele. Agora foi! 😀

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Vila da Quinta, 28 anos depois

Dia dos Pais, reunião de família. Por mais comercial que a data seja, se a família é grande – como é a minha – o único jeito de se reunir são nessas datas específicas. Especialmente quando essas datas são em domingos.

Assim, volta e meia temos aqui aquela tradicional conversa sobre os velhos tempos, lembranças, rememorações e para ilustrar tudo isso vem junto os tradicionais álbuns de fotografias. Com toda a evolução tecnológica, estes objetos estão ficando obsoletos. É difícil imaginar, no futuro, alguém manuseando um álbum de retratos (a própria palavra “retrato” já está em desuso), a menos que seja em algum plataforma virtual, com recursos de software e tudo o mais. Ou seja, um pouco dessa poesia nostálgica que só a palpabilidade das coisas nos apresenta está se perdendo. Por outro lado, porém, há a perecibilidade dos objetos e talvez o meio virtual seja mesmo o melhor para armazenar tais lembranças.

No entanto, hoje essa capacidade de deterioração ficou mais evidente para nós, participantes de nossa pequena reunião. Um dos mais queridos e bonitos álbuns da nossa coleção sofreu recentemente um pequeno acidente envolvendo umidade. Algumas fotos grudaram umas nas outras ficando, assim, danificadas. Engraçado que, antes, estas mesmas fotos eram apenas mais algumas, mas com a possibilidade de perdê-las para todo o sempre parece que seu valor tanto como documento quanto peça de estimação parece redobrar.

Desta forma, me veio a ideia – nada original, confesso – de refazer duas dessas fotos. Minha sorte é que tenho familiares tão malucos quanto eu e que toparam o desafio. E 28 anos depois daquele março de 1984, lá estão eu, minha irmã Rosimeri e meus pais, ao fundo a paisagem da Vila da Quinta. Como acompanhamento, as fotos originais, infelizmente danificadas para sempre.

Interessante ver o pequeno processo de urbanização que sofreram as imediações. Quando eu era criança as casas podiam ser contadas nos dedos, as ruas raramente suportavam veículos e a flora nativa cresciam sem problemas (vulgo mato!). Hoje ainda estamos um pouco longe de dizer que somos uma pequena cidade, mas as casas, a maioria de alvenaria, contrastam com o vazio do horizonte de outrora.

Ruas nasceram, torres de telefonia foram erguidas, as vias receberam precária “pavimentação” (saibro) para que a linha de transporte coletivo passe. A liberdade democrática é estampada em placas de candidatos – que não necessariamente condizem com minhas preferências eleitorais, que fique claro – que prometem progresso (sic) para a tão querida Vila.

A verdade é que crescemos e ganhamos peso (hehe), eu e a Vila. Mas ainda há algo daquela criança em mim, assim como a hoje inchada povoação também guarda resquícios da falta de estrutura que apresentava antigamente.

A diferença é que agora o álbum pode se deteriorar, não importa. Graças ao meio virtual, estamos eternizados: eu, minha família, minha Vila.

PS: Fotos e produção “artística” do meu sobrinho Éder Luís, que nem nascido era naquele longínquo 1984.

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